Ilustração: Monia Nilsen.

Será que a Ética é ruim para os negócios (de design)?

Quando os designers se olham no espelho (ético) e não gostam do que vêem.

Artigo traduzido da versão original inglesa por André Grochowicz

Um código para os designers

Uma das razões pelas quais é difícil para os designers lidarem com questões éticas é que ainda temos poucas ferramentas para enfrentar as questões éticas que surgem no nosso trabalho. Diferente de vários dos métodos no nosso kit de ferramentas, muitos designers não aprendem sobre Ética durante sua formação. Uma olhada rápida nos currículos de várias universidades de elite (pelo menos na Europa) evidencia um simples fato: aparentemente a Ética não é tão relevante. O que significa que: ou a maioria delas precisa adicionar Ética como parte da ementa ou não estão fazendo um bom trabalho no ensino desse conhecimento (se você é parte de uma instituição de ensino e acha que essa é uma afirmação injusta, eu espero que você se posicione).

Não estou falando de moralidade (que é de uma natureza social, cultural ou religiosa), estou falando sobre como devemos direcionar nossas decisões profissionais como comunidade.

Além disso, temos o simples fato de que, diferente de engenheiros, médicos ou advogados, os designers não obedecem necessariamente a um código de ética, mesmo que a história recente nos mostre que podemos ajudar a causar um danos enormes à sociedade. Esse é exatamente o ponto que o Mike Monteiro traz no seu livro “Ruined by Design” (“Arruinado pelo Design” em tradução livre), no qual ele traz um código de ética open-source (obrigado, Mike!) que você pode conferir em português aqui. O problema é que um código de ética não é uma coisa trivial: todo o ponto de falarmos sobre Ética é ter princípios fundamentais e universais sobre o que significa agir para o bem comum, ou o que é viver uma vida melhor. Não estou falando de moralidade (que é de uma natureza social, cultural ou religiosa), estou falando sobre como devemos direcionar nossas decisões profissionais como comunidade.

Depois de 20 anos na área, sinto que o design enquanto profissão ainda é relativamente imaturo na parte ética. Pra mim, a reflexão ainda é muito silenciosa, muito marginal, muito pequena, quando comparada com outras profissões com uma importância social de tanto impacto.

Já ouviu isso tudo antes?

Claro, isso não é novo. É um assunto que tem incomodado os designer por décadas. Ken Garland liderou um grupo que lançou o “First things first manifesto” (“Manifesto primeiro o mais importante” em tradução livre, lançado em 1964 e renovado em 2000). Em 2007, o Designers Accord (“Acordo dos Designers” em tradução livre) teve o objetivo de “avançar o diálogo em torno da Ética, práticas, e responsabilidades da comunidade criativa.” Em 2009, David Berman lançou o “Do good design” (“Design para o bem” em tradução livre), estimulando designers no seu “Compromisso em fazer o bem”: a serem honestos com sua profissão; honestos consigo mesmos; investirem pelo menos 10% de seu horário de trabalho ajudando a reparar o mundo. Existem vários outros exemplos, incluindo o “Ruined by Design” que o Mike Monteiro publicou em 2019 e eu já havia mencionado.

Não importa se você quer fazer errado ou não — são as consequências que importam no final

Isso nem deveria ser uma questão

Eu sinto o elefante na sala: de um lado as pessoas de negócios podem estar olhando para a Ética no design como mais um fator limitante; e, do outro lado, designers acham melhor não trazer esse assunto para discussão, com medo de adicionar um obstáculo. Mas como James Williams muito bem colocou (em Ethics for Design), “Ética não é um pedal de freio, mas um volante”. Assim como outras transformações (segurança, economia verde e circular, responsabilidade pela cadeia de suprimentos, para citar alguns), a habilidade de demonstrar que uma empresa tem princípios éticos que a guiam para além do balanço contábil é algo que gera confiança, constrói lealdade e atrai investimentos. Qual o valor disso para sua empresa?

A habilidade de demonstrar que uma empresa tem princípios éticos que a guiam para além do balanço contábil é algo que gera confiança, constrói lealdade e atrai investimentos.

É verdade que a convergência entre negócios e Ética deveria ser um fator higiênico. Mas aqui é onde o consequencialismo vem com tudo: não importa se você você quer fazer errado ou não — são as consequências que importam no final. E porque as escolhas são complexas, é responsabilidade do designer ajudar seus clientes a navegá-las. Talvez para chegarmos lá, vamos precisar de um banho de ética (ethical-washing) assim como já fizemos com outras questões. Mas pelo menos já é uma pressão para que a Ética faça parte do processo de design. Explicitamente.

Problemas e mais problemas! Alguma solução?

Na Europa, no que diz respeito à privacidade, a implementação legal da GDPR (“Regulação Geral de Proteção de Dados”) foi um passo importante. Na Noruega, onde eu moro, o Design Universal é obrigatório por lei, punindo o seu não cumprimento como um ato de discriminação (que pode ser acionado por qualquer cidadão sem precisar pagar nada por isso). Critérios de sustentabilidade direcionam as escolhas de consumidores e investidores, e mais atenção é dada ao tripé da sustentabilidade.

Creative Leader for digital design @ EGGS Design Oslo. Works with the cross-over between technology and design, for the purpose of helping humans.

Creative Leader for digital design @ EGGS Design Oslo. Works with the cross-over between technology and design, for the purpose of helping humans.